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A pergunta essencial: o teletrabalho é mais saudável do que o trabalho presencial?

O mundo já mudou e ainda estamos a tentar perceber o que aí vem. Mas há estratégias e sinais a que devemos estar atentos.

​H​á pouco mais de um ano, o conceito de trabalho remoto ainda era conversa de nicho, com pouquíssimas empresas a darem essa liberdade aos funcionários. Mas a pandemia lançou-nos pelo mundo fora em períodos de confinamento e, de repente, a ideia de teletrabalho não era uma hipótese, tornou-se uma obrigação.

​Na próxima segunda-feira, dia 14 de junho, o teletrabalho obrigatório que tem vigorado em Portugal vai deixar de o ser. No entanto, em muitas empresas a realidade não vai voltar ao passado do dia para a noite. Há modelos mistos que vamos ver mais frequentemente e até há quem já nem pense voltar ao modelo antigo, como ficámos a saber em março quando a seguradora Liberty decidiu que o teletrabalho era a nova regra (com a aprovação da grande maioria dos funcionários).

Pedro Pessoa, especialista em recursos humanos e responsável de Lead HR Development na consultora Kelly Resources, realça: “A pandemia trouxe um mundo de pernas para o ar. Nós em Portugal temos uma cultura um pouco mais conservadora. Existia alguma resistência das empresas em aplicar algo com o teletrabalho”.

Por cá, destaca, “temos ainda esta cultura de ‘tu estás a produzir e eu estou a ver o que estás a fazer’. Sou capaz de perceber quando vais fumar ou beber um café’”. E, no entanto, “no espaço de meses as empresas tiveram de se adaptar muito rapidamente a esta realidade.”

O que mudou em concreto é mais do que apenas estarmos longe uns dos outros. “Tivemos de passar para um racional de objetivos: ‘eu lanço-te um desafio e tu és capaz de cumprir ou não, independentemente de como geres o teu dia’”, explica Pedro Pessoa. Isto prolongou um debate que já andava a ganhar força.

A evolução tecnológica levou a que, num sem número de empregos, trabalho e vida pessoal facilmente se atropelassem.

Quantas vezes deu por si a responder a algum email ou telefone longe do trabalho, já fora do horário laboral?

Passámos de uma realidade em que as empresas estavam focadas nesta relação de work-life balance, em que se falava nas horas que a pessoa trabalhava e que era importante dar espaço à pessoa para os outros papéis na sua vida, o social, o familiar, por aí fora. Agora está tudo misturado. Passámos de uma realidade de produtividade para performance, quase como se fôssemos atletas. Estamos ligados 24 horas por dia. É uma misturada brutal”. Isto traz novos desafios. E em certos casos é mesmo uma questão de saúde.

Mesmo quem tem horários mais rígidos de trabalho sabe que o nosso organismo não é especialmente obediente ao relógio. Podemos até sair do local de trabalho ou desligar o computador à hora certa  mas é fácil levar preocupações para as horas seguintes. Levamos o stress, com todo o impacto que tal tem no nosso organismo. Se o stress dá uma noite mal dormida, no dia seguinte é para o trabalho que levamos a falta de concentração. O ciclo pode repetir-se e agravar-se. Mais café até pode dar um boost de energia mas o café não apaga a fadiga. Ela está lá. O que nos leva a outra conversa.

Uma questão de saúde

Uma meta-análise da Gallup que envolveu mais de 82 mil equipas e 1,8 milhões de trabalhadores de 73 países, das mais diversas áreas, mostrava padrões em comum. Assumir que a relação de uma pessoa com o trabalho é apenas em função do salário é ariscar perder o compromisso. Sobre a relação e compromisso de colaboradores com as respetivas empresas, alguns números destacavam-se: quem se sente mais comprometido, tem menos 41 por cento de absentismo, menos 70 por cento de acidentes de trabalho, mais 17 por cento de produtividade e até 20 e 21 por cento mais de vendas e lucros, respetivamente.

O tal compromisso é uma gestão de expetativas (o que é esperado da pessoa), reconhecimento do trabalho feito, se a opinião das pessoas são tidas ou não em conta ou se há perspetivas de evoluir, por exemplo. Longe vai o tempo dos empregos para a vida em muitas empresas. Mas também o extremo posto, quando não há noção de estabilidade e previsibilidade, tem consequências negativas. E é neste contexto que a ideia de bem-estar e de saúde das pessoas deve ser tida em conta.

Estas explicações fazem parte do livro “Start & Stop”, a mais recente obra do fisiologista José Soares, que tem dedicado a sua carreira à forma como um contexto de trabalho saudável pode contribuir para a produtividade. Ou dito de outra maneira, como a saúde de quem trabalha contribui para a saúde da própria empresa.

Em causa está uma questão de abordagem que pode começar em pequenas coisas. “A regra ‘se está sentado 60 minutos, mexa-se durante três’ faz todo o sentido no mundo corporativo”, defende José Soares. É uma questão de saúde, bem-estar e performance. “Pessoas fisicamente ativas são mais saudáveis, vivem mais tempo e têm maior rendimento pessoal e profissional”

Num local de trabalho há pequenas alterações que podem valer a pena. Melhor do que ter café sempre à disposição, por exemplo, é “disponibilizar fruta em diversos locais do escritório”. Em contexto de teletrabalho isto pode ter perdido algum sentido mas há sugestões que se mantém ainda mais atuais. Exemplo prático: emails internos. Pode ser boa política haver “horas fixas para responder a mails internos”.

Outro fator que pode fazer a diferença em tempos de reuniões Zoom é apostar em reuniões mais curtas, eficazes e esclarecedoras.Quando tal for possível, pode até ser melhor apostar nelas ao final do dia e não logo pela manhã, onde uma reunião mais prolongada pode ser sinónimo de stress extra para terminar tarefas do dia. Pode valer a pena

“Nunca como agora foi tão urgente olhar para o tema da saúde e bem-estar das empresas como algo decisivo não só para a sobrevivência das organizações, mas da sociedade no seu todo”, escreve José Soares. “Uma sociedade doente é pouco produtiva e, por isso, não disponibiliza os recursos necessários para o seu desenvolvimento e prosperidade.”

O teletrabalho merece atualmente toda uma nova discussão em torna das leis mas o debate terá também de ser feito ao nível da cultura de empresas.

Pedro Pessoa realça que “o bem-estar das pessoas é fundamental e uma das coisas que nos apercebemos rapidamente no início da pandemia foi que não era só o físico, o lado psicológico estava a ser bastante afetado”.

“O sofrimento psicológico é mais silencioso. Uma coisa é partirmos um braço. É uma dor física, visível. Outra é este contexto de quase guerra que em certos momentos a pandemia trouxe, que vai afetar naturalmente o desempenho das pessoas, há mais desgaste, ansiedade, naturalmente a capacidade de resposta das pessoas diminui, a concentração diminui”.

No caso da Kelly Resources, o lado de consultora na área de recursos humanos é visto de duas formas: por um lado no know-how que podem levar até uma empresa cliente, por outro aquilo que se faz em casa.

Pedro Pessoa explica à NiT que, nesta altura, o desafio que a pandemia traz já é mais na ordem do desgaste. Mas logo no primeiro confinamento, uma das prioridades na própria empresa foi a criação de documentos de suporte para gerir a ansiedade, com exemplos e sugestões de como gerir. Às vezes um simples “parar para recuperar” pode ter resultados. “Havia uma grande desorientação das pessoas”. Stress, ansiedade, cansaço, foram temas abordados, até com exemplos de sinais a que as pessoas podiam estar atentas. Seria importante responder ao impacto da pandemia mas ao fazê-lo era igualmente importante não comprometer o futuro.

O futuro é um conceito que também chega às outras áreas. O mundo mudou e não há empregos que se mantenham imutáveis. “A formação não é só para responder às necessidades atuais, deve ser pensada no sentido de desenvolver a pessoa, seja para a preparar para uma eventual outra função, ou para garantir que está atualizada”. Não é uma mudança subtil. “Passámos de algo reativo para uma postura proativa.”

A Google foi um caso paradigmático e que é bastas vezes citado. A sua ascensão como gigante tecnológica passou também por uma abordagem diferente. No local de trabalho foram disponibilizados uma série de serviços de saúde. O horário tornou-se mais flexível e foi facilitado o acesso das pessoas a ginásios e centros de fitness. Foram disponibilizadas bicicletas comunitárias e até apoio financeiro em certas situações para colaboradores. Até as opções na cafetaria mudaram para alternativas mais saudáveis. Não virou alienígena, bem pelo contrário.

As mudanças que a Google implementou foram fazendo escola. Ao ponto de irem deixando de “ser exceção para começar a entrar no mainstream”, como nota Pedro Pessoa.

Algo que tanto Pedro Pessoa como o José Soares relembram que não pode ser desvalorizado, e que será um desafio extra às empresas com as novas realidades do teletrabalho, é não descurar o lado social. Não é sequer fácil quantificar como um café entre colegas pode ajudar a cimentar relações de grupo. Há, portanto, que ser criativo. Em certos casos é até possível abordar diferentes problemas de uma só vez.

Pedro Pessoa destaca uma simples aula de ioga que foi organizada na sua empresa e que juntava estes diferentes lados. Havia a ideia de atividade em grupo, foi algo em contexto laboral que permitiu o tal desligar do botão, ligando as pessoas de forma diferente. e pelo meio até técnicas de meditação e respiração foram ensinadas ou lembradas e que poderiam ter aplicação prática na eterna luta contra o stress.

Cada empresa, pela sua dimensão, contexto ou atividade, implicará sempre abordagens próprias. “Quando surge uma crise, tudo abana”, destaca Pedro Pessoa. Até pode haver coisas que nos escaparam ao controlo mas o que se faz depois pode ser decisivo. E aqui será sempre importante o cuidado e foco na comunicação, o que implica transparência em explicar decisões da empresa. São lições que não devem ficar apenas nos livros mas que devem passar a estar no dia a dia de uma organização. A bem da saúde. Da empresa e de quem nela trabalha.

Artigo NiT, Junho 2021