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Portugal é um país que padece de debilidades estruturais na sua economia

Entrevista RH Magazine, por Beatriz Cassona

No final de janeiro, o INE lançou as estimativas de emprego e desemprego relativas a dezembro de 2020. Fomos falar com Pedro Lacerda, CEO da Kelly Services, para perceber o que nos dizem estes dados; em que situação nos encontrávamos no final de 2020 no que respeita ao desemprego; como se encontra neste momento o mercado de recrutamento; e quais as expectativas relativamente ao desemprego e ao emprego para este ano também incerto.

Os resultados do INE mostram que, em dezembro de 2020, a população empregada, que correspondeu a 4 793,4 mil pessoas, diminuiu 0,2% (10,3 mil) em relação ao mês anterior e 1,1% (52,7 mil) relativamente ao mês homólogo em 2019. Já a população desempregada diminuiu 10,2% em relação a novembro, e 4,8% em relação ao mês homólogo. A taxa de desemprego situou-se, assim, em 6,5%, valor inferior em 0,6 p.p. à do mês precedente, em 1,4 p.p. à de setembro do mesmo ano e em 0,2 p.p. à de dezembro de 2019. Assim, em dezembro de 2020, a população desempregada, cuja estimativa provisória foi 331,1 mil pessoas, diminuiu 10,2% (37,8 mil) em relação ao mês anterior, e 4,8% (16,7 mil) comparativamente ao período homólogo de 2019. O que nos dizem estes dados? Serão números otimistas, tendo em conta o contexto atual? E o que podemos esperar para este novo ano no que respeita ao desemprego e ao mercado do recrutamento? Que ano preparam as empresas? Estivemos à conversa com Pedro Lacerda, CEO da Kelly Services, que nos fala sobre estas e outras temáticas.

BC: Em dezembro de 2020, o INE relata que a taxa de desemprego situou-se em 6,5%, menos 0,6 p.p. que no mês homólogo de 2019. No entanto, a população empregada diminuiu 0,2% em relação ao mês anterior e 1,1% relativamente ao mês homólogo. O que nos dizem estes dados? Em que situação nos encontrávamos no final de 2020 no que respeita ao desemprego? 

PL: Primeiramente, há que ter em conta que estes números de empregabilidade contêm cerca de 200 000 trabalhadores que estão ainda abrangidos pelo layoff e que estão circunscritos a muita incerteza de mercado a partir do momento em que o novo desconfinamento aconteça. Ou seja, estes números da taxa de desemprego podem aumentar ligeiramente como podem disparar abruptamente, dependendo da forma como a sociedade reaja e combata o vírus, da continuação da estimulação da economia e, mais importante ainda, da criação de novas áreas de investimento e de novos postos de trabalho.

Em segundo lugar, é chave Portugal trabalhar um plano de desenvolvimento consistente que permita, na recuperação económica, ter setores que reabsorvam rapidamente muitos dos trabalhadores que vão estar ou já estão desempregados face à pandemia.

Estes números são otimistas? Tendo em conta que houve um ligeiro recuo face ao mesmo mês de 2019?

Tendo sempre presente que o layoff sustenta estes números temporariamente, os números são positivos, mas há questões a curto prazo que devem ser imediatamente cuidadas. Por exemplo, questões sobre os profissionais que estão e estarão desempregados, que trabalhavam na restauração e hotelaria e que, devido à contração neste mercado, já não terão espaço para utilizarem a sua experiencia nesta atividade, pois o mercado para os próximos anos terá seguramente uma redução de oferta. O mesmo se aplica ao comércio a retalho e muitas PMEs de variadíssimos setores de atividade.

Não falaria de otimismo, mas sim de pragmatismo, os tempos são de muita incerteza, e Portugal é um país que, mesmo tendo na sua idiossincrasia muita alma, esforço e dedicação, padece de debilidades estruturais na sua economia, que neste momento vão ter um peso grande na velocidade de recuperação.

Estamos habituados a gerir um país muito dependente de receitas fiscais, serviços e alguma indústria especializada. Há que dar, na minha ótica, total prioridade ao plano estratégico apresentado pelo Professor António Costa e Silva, de maneira a acelerar rapidamente os investimentos nos setores primários e secundário – sem isso, continuaremos a ser um estado de demasiada interdependência complexa.

Como se encontra neste momento o mercado de recrutamento? Sabemos que várias empresas optaram por “congelar” as contratações de novos talentos… No entanto, há empresas que mantiveram o ritmo de recrutamento? E empresas que contrataram até mais que o “habitual”?

O mercado de recrutamento mantém-se dinâmico. Se por um lado algumas áreas decresceram no número de contratações, por outro outras aumentaram a procura de novos profissionais, o que tem ajudado a manter algum equilíbrio no setor. No fim, a nova realidade em que vivemos apenas redirecionou o mercado e aumentou ainda mais a procura de profissionais em áreas mais técnicas e que passaram a ser foco, como é o caso do IT, Engenharia, Marketing Digital e Healthcare. Não estamos com isto a dizer que áreas tipicamente dinâmicas – Finance, HR e Sales – deixaram de ser recrutadas, apenas foram aquelas que, por força das circunstâncias e do contexto, acabaram por ser temporariamente consideradas menos prioritárias em algumas empresas. O mercado está a aguardar por uma situação mais estável, que permita fazer um investimento mais duradouro e com menos risco em novo capital humano.

Na zona mais a norte de Portugal, algumas empresas viram-se obrigadas a congelar os recrutamentos, fruto dos setores onde estavam inseridas. No entanto, assistimos a setores que mantiveram a operação e inclusive aumentaram o ritmo de recrutamento. São exemplos o setor da logística & transporte, indústria alimentar e indústria têxtil, que se direcionou para têxtil ligado à área da saúde. Estes setores continuam com ritmo de recrutamento, reforçando também as posições técnicas dentro da empresa, áreas de forte procura atualmente.

No mercado da saúde, o recrutamento manteve-se ativo e dinâmico. O setor da ciência e da saúde viu as suas contratações aumentarem por força da situação pandémica, reforçando as suas equipas e dotando-as – ainda mais – de perfis técnicos, especializados e disponíveis de forma imediata. É uma área onde se denota, para alguns perfis, escassez de profissionais, como são os casos nas áreas de enfermaria e medicina especializada.

Estes números são relativos ao final de 2020. E relativamente a 2021? Quais são as expectativas relativamente ao desemprego e ao emprego para este ano também incerto? Serão números otimistas? O que podemos perspetivar? 

Estamos num status VUCA (em inglês, Vulnerability, Uncertainty, Complexity, Ambiguity – Vulnerabilidade, Incerteza, Complexidade, Ambiguidade) e, neste sentido, é futurologia prever o que vai acontecer. Repare que há seis meses dizíamos que agora, nesta fase de 2021, já estaríamos a crescer e a pandemia estaria controlada. Foi rigorosamente o contrário, e é difícil de prever se o segundo semestre de 2021 demonstrará já uma recuperação económica e uma imunidade de país satisfatória.

O grande desafio para 2022 e 2023 vai ser o de diminuir as tremendas desigualdades sociais (alargamento do fosso já existente) que esta pandemia trouxe a nível global e esse será um tema estrutural a todo o mundo.

De acordo com o que conclui junto dos RH dos clientes da Kelly Services, as empresas preparam um ano para recrutar, ou um ano apenas para estabilizar as empresas e negócios, sem contratações à vista?

Esta pergunta não tem uma resposta linear. A Kelly Services tem clientes que objetivamente estão a preparar o ano para recrutar e até aproveitar os bons profissionais que começam a ficar disponíveis no mercado, e que noutras alturas seriam mais difíceis de contratar. Outros clientes estão a preparar o ano para estabilizar as empresas e os negócios. No entanto, isto não é sinónimo de não se recrutar nestas empresas, porque até a estabilização poderá implicar, em determinadas alturas, um reforço ou uma reposição de algumas posições nas estruturas. No setor da ciência e da saúde será um ano não só para estabilizar, mas também para reforçar equipas em áreas mais específicas (Investigação, Biologia, Anatomia Patológica, Biotecnologia, etc.).

O ritmo de recrutamento deverá, para alguns setores, demorar a estabilizar?

Naturalmente que sim. Os setores mais afetados pelo cenário pandémico, como os setores do retalho, hotelaria, entre outros, vão demorar mais tempo a estabilizar e não tenho dúvidas de que, nos próximos dois anos, o mercado vai contrair. Mais do que setores, é possível que algumas posições ligadas a áreas mais de sales e suporte nas empresas demorem um pouco mais de tempo a retomar a sua dinâmica, comparativamente a áreas mais técnicas, como o IT, Engenharia e Marketing, que terão uma curva ascendente mais rápida. Outros setores passarão por reestruturações profundas, como é o caso do setor aeroportuário – um setor bastante afetado pelo cenário pandémico. As previsões de retoma apontam para 2024. A juntar a ele, o setor de bares e discotecas, que se encontra totalmente fechado desde março 2020.